A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) tem novo nome: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A mudança foi proposta em consenso internacional publicado na The Lancet em 2026, endossado por 56 organizações científicas e de pacientes — entre elas a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia — e apresentada no Congresso Europeu de Endocrinologia do mesmo ano. Não se trata de rebatismo cosmético: a nomenclatura antiga sugeria que a condição era, essencialmente, um problema ovariano, e a nova nomenclatura corrige esse enquadramento — com implicações diretas sobre como o nutricionista deve estruturar o rastreio e a conduta dessas pacientes.
Por que o nome mudou — e o que continua igual
O termo “ovários policísticos” induzia a um erro conceitual comum: a ideia de que a presença de cistos ovarianos é a característica central da condição. Na prática, os critérios diagnósticos (Rotterdam) nunca exigiram achados ultrassonográficos como obrigatórios — dois de três critérios bastam: hiperandrogenismo, disfunção ovulatória ou morfologia ovariana característica, sendo esta última composta por folículos, não cistos patológicos. Essa imprecisão de nome tinha consequência prática real: mulheres sem achados visíveis no ultrassom, mas com quadro clínico claro, saíam de consulta sem diagnóstico fechado — o subdiagnóstico da condição chega a taxas estimadas de até 70% em alguns levantamentos.
A nova nomenclatura reflete três eixos: “ovariana” preserva a relevância reprodutiva e ovulatória; “metabólica” reconhece formalmente a associação com resistência à insulina, dislipidemia, esteatose hepática e risco cardiovascular elevado; “poliendócrina” sinaliza que múltiplos eixos hormonais estão envolvidos, não apenas o ovariano. É essa reformulação — de condição reprodutiva isolada para condição sistêmica — que muda o peso relativo das prioridades de rastreio e conduta. Os critérios diagnósticos em si não mudaram, e a implementação da nova nomenclatura é gradual, prevista até 2028 — o que significa que, na prática de consultório, SOP e SOMP vão conviver como sinônimos por um bom tempo, e a paciente pode chegar com qualquer um dos dois termos no laudo.
Conduta nutricional aplicada
A reformulação conceitual reforça, mais do que contradiz, o que a nutrição já vinha priorizando nessa condição — mas dá respaldo para ampliar o escopo do rastreio metabólico dentro do plano de cuidado.
Rastreio metabólico ampliado — não parar no eixo reprodutivo
Com o reconhecimento formal do caráter sistêmico da síndrome, a anamnese e a solicitação de exames não devem se limitar a hormônios reprodutivos. Perfil lipídico completo, glicemia de jejum e HOMA-IR, avaliação de esteatose hepática (MASLD é comorbidade frequente) e aferição de pressão arterial passam a ser parte do rastreio de rotina, não exceção reservada a casos com obesidade evidente — dados recentes mostram risco cardiovascular elevado nessas pacientes mesmo quando peso, glicemia e pressão arterial estão dentro da normalidade isolada, o que reforça a necessidade de olhar o conjunto, não cada marcador isoladamente.
Controle glicêmico como eixo central da conduta
A resistência à insulina é hoje entendida como mecanismo central, não coadjuvante: a hiperinsulinemia compensatória estimula diretamente a esteroidogênese ovariana e reduz a síntese hepática de SHBG, amplificando o hiperandrogenismo — um ciclo bidirecional em que resistência insulínica e excesso de andrógenos se retroalimentam. Isso torna a dieta de baixo índice/carga glicêmica, com fibra e proteína em todas as refeições principais, a estratégia nutricional de maior alavancagem mecanística disponível, e não apenas uma recomendação genérica de “comer melhor”.
Inositol: o que as diretrizes mais recentes realmente dizem
Mio-inositol e D-chiro-inositol atuam como segundos mensageiros da ação insulínica, e a combinação na proporção 40:1 (considerada a mais próxima da fisiológica) tem sustentação em ensaios clínicos para melhora de sensibilidade insulínica, regularização de ciclo e restauração da ovulação. É importante alinhar a expectativa com a paciente: a diretriz mais recente posiciona o inositol como adjuvante para melhora de parâmetros metabólicos, não como substituto da metformina quando esse é o objetivo terapêutico definido pelo médico — a decisão sobre substituir ou associar segue sendo médica, cabendo à conduta nutricional a orientação sobre uso, expectativa realista de resposta e integração com a dieta de baixo índice glicêmico.
Micronutrientes com maior peso de evidência
Vitamina D (modula resistência à insulina e reduz inflamação crônica), magnésio (sinalização hormonal e metabolismo glicêmico, com evidência de redução de HOMA-IR na suplementação), ômega-3 (sensibilidade insulínica e perfil lipídico) e cromo (há ensaios mostrando melhora de glicemia e sensibilidade insulínica com picolinato de cromo) reúnem o maior volume de evidência entre os micronutrientes estudados nessa condição. Deficiências desses nutrientes são frequentes nessa população e podem agravar tanto o quadro metabólico quanto o hormonal — o que justifica triagem nutricional dirigida, não suplementação genérica sem investigação prévia.
Microbiota intestinal e carga inflamatória
A fisiopatologia da condição envolve inflamação crônica de baixo grau e disbiose intestinal, associadas tanto à resistência insulínica quanto ao hiperandrogenismo. Fibras fermentáveis, redução de ultraprocessados e, quando indicado, suplementação probiótica compõem um eixo adicional de conduta — com racional que se conecta diretamente ao eixo glicêmico já discutido, e não deve ser tratado como estratégia isolada ou secundária.
Perguntas Frequentes
A mudança de nome exige novos exames para pacientes já diagnosticadas com SOP?
Não. Os critérios diagnósticos não mudaram — a mudança é de nomenclatura e de enquadramento conceitual, não de protocolo diagnóstico. O que muda na prática é o escopo do rastreio metabólico de acompanhamento, que passa a ser mais amplo e sistemático, não restrito ao eixo reprodutivo.
Inositol substitui a metformina no tratamento da SOMP?
Não, segundo as diretrizes mais recentes. O inositol é posicionado como adjuvante para melhora de parâmetros metabólicos, e a metformina segue preferível quando esse é o objetivo terapêutico definido pelo médico. A decisão de substituir ou associar as duas abordagens é médica; à conduta nutricional cabe orientar uso e expectativa realista de resposta.
Toda paciente com resistência insulínica na SOMP precisa de dieta com carboidrato muito restrito?
Não necessariamente. O racional mais sustentado pela evidência é o controle de índice e carga glicêmica associado a fibra e proteína — não a restrição radical de carboidrato, que nem sempre é sustentável a longo prazo e não é, isoladamente, mais eficaz do que uma dieta de baixo índice glicêmico bem estruturada.
Quais exames metabólicos ganham prioridade com o reconhecimento sistêmico da SOMP?
Perfil lipídico completo, HOMA-IR, avaliação de esteatose hepática e aferição de pressão arterial passam a compor o rastreio de rotina, mesmo em pacientes sem obesidade evidente — já que o risco cardiovascular elevado nessa condição não se explica inteiramente pelos fatores de risco tradicionais isolados.
Referências
Consenso internacional para mudança de nomenclatura da síndrome dos ovários policísticos para síndrome ovariana metabólica poliendócrina. The Lancet. 2026.
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Consenso global propõe novo nome para a síndrome dos ovários policísticos. 2026.
Alterações metabólicas da SOMP: como influenciou a mudança de nome da síndrome. Portal Afya. 2026.
Mulheres com síndrome ovariana metabólica têm risco cardíaco quatro vezes maior. The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health, citado em reportagem do Correio Braziliense. 2026.
Abordagens nutricionais no tratamento da síndrome dos ovários policísticos: evidências e estratégias terapêuticas. Contribuciones a las Ciencias Sociales. 2025.
Qual o papel do inositol na SOP? Portal Afya. 2026.
Magnésio e inositol na SOP: como atuam no metabolismo, hormônios e fertilidade. Grupo Longevidade Saudável. 2025.
Andreia Nishiyamamoto é nutricionista especialista em Saúde da Mulher.
Para aprofundamento técnico em manejo nutricional de condições hormonais e metabólicas femininas, conheça a pós-graduação em Nutrição Estética e Saúde da Mulher do PratiEnsino (pratiensino.com.br). Acompanhe também o conteúdo no Instagram.


